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Psicologia Positiva e Resiliência: foco no indivíduo e na família

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RESUMO. O presente artigo apresenta a psicologia positiva como movimento de investigação de aspectos potencialmente saudáveis dos seres humanos, em oposição à psicologia tradicional e sua ênfase nos aspectos psicopatológicos. Dentre os fenômenos indicativos de vida saudável destaca-se a resiliência, por referir-se a processos que explicam a superação de adversidades, cujo discurso hegemônico foca o indivíduo. As pesquisas quantitativas colaboram para naturalizar a resiliência como capacidade humana, e os estudos em famílias trazem contribuições de pesquisas qualitativas realizadas na visão sistêmica, ecológica e de desenvolvimento. Consideradas as dificuldades metodológicas e as controvérsias ideológicas do conceito, sugere-se uma cautelosa investigação de sentido antes da aplicação do termo.

Palavras-chave: Psicologia positiva; resiliência; resiliência em famílias.

POSITIVE PSYCHOLOGY AND RESILIENCE: FOCUS ON THE INDIVIDUAL AND FAMILIES

ABSTRACT. The present work presents positive psychology as a movement that proposes the investigation of potentially healthy aspects of human beings in opposition to traditional psychology and its emphasis in psychopathology. Among the phenomena that indicate healthy life, resilience is distinguished by its references to processes that explain bouncing back to adversities whose hegemonic discourse is focused on the individual. The quantitative studies have contributed to the naturalization of resilience as a human capacity, and the family studies were identified as based on qualitative data within systemic, ecological and developmental perspectives. Having considered the methodological difficulties and the ideological controversies of the concept it is suggested a cautious investigation of meaning before the application of the term.

Keywords: Positive psychology; resilience; family resilience.

Psicologia Positiva e Resiliência: foco no indivíduo e na família

Psicologia Positiva e Resiliência: foco no indivíduo e na família

Maria Angela Mattar Yunes

O presente capítulo apresenta a resiliência como um construto inserido nas prioridades de investigação da psicologia positiva. Tal movimento caracteriza alguns aportes da psicologia contemporânea que buscam compreender os aspectos potencialmente saudáveis dos seres humanos em oposição à psicologia tradicional e sua ênfase nos aspectos psicopatológicos.

Tendo em vista que o construto de resiliência toma dimensões a partir de processos que explicam a superação de adversidades, poderia-se sugerir que o conceito de resiliência busca tratar de fenômenos indicativos de padrões de vida saudável.

As pesquisas quantitativas realizadas sobre esse assunto apontam para um discurso que foca aspectos individuais e colabora para naturalizar a resiliência como uma capacidade humana. Os estudos sobre resiliência em famílias trazem contribuições de pesquisas qualitativas realizadas na visão sistêmica, ecológica e de desenvolvimento.

Neste texto, são apresentadas considerações acerca das dificuldades metodológicas e as controvérsias ideológicas conceituais que visam a sugerir uma cautelosa investigação de sentido antes da aplicação do termo resiliência na área das ciências humanas e sociais.

Psicologia positiva e resiliência

Durante todo o ano de 1998, Martin E. P. Seligman, na condição de presidente da American Psychological Association, escreveu artigos mensais que focalizavam a necessidade de mudança no foco das contribuições da psicologia, ainda centrados numa prática histo-ricamente orientada para a compreensão e tratamento de patologias.

Segundo este importante pesquisador, a ciência psicológica tem “esquecido” ou negligenciado a sua mais importante missão: a de construir uma visão de ser humano com ênfase em aspectos “virtuosos”.

Nesta ótica, o movimento intitulado psicologia positiva vem afirmar-se na edição especial de 2001 do periódico American Psychologist e é definido como uma “tentativa de levar os psicólogos contemporâneos a adotarem uma visão mais aberta e apreciativa dos potenciais,das motivações e das capacidades humanas” (Sheldon & King, 2001,p. 216).

Tendo em vista esta perspectiva, a ciência psicológica busca transformar velhas questões em novas possibilidades de compreensão de fenômenos psicológicos, tais como, felicidade, otimismo, altruísmo, esperança, alegria, satisfação e outros temas humanos tão importantes para a pesquisa quanto depressão, ansiedade, angústia e agressividade.

Trata-se, portanto, de uma psicologia que almeja antes de qualquer coisa romper com o viés “negativo” e reducionista de algumas tradições epistemológicas que têm adotado o ceticismo diante de expressões salutogênicas de indivíduos, grupos ou comunidades. Entretanto, postular uma ciência que focalize potencialidades e qualidades humanas exige tanto esforço, reflexão e seriedade conceitual, teórica e metodológica, quanto o estudo de distúrbios e desordens humanas.

Na esteira destas iniciativas, alguns fenômenos indicativos de “vida saudável” têm sido mencionados como sistemas de adaptação ao longo do desenvolvimento (Masten, 2001), dentre os quais é destacada a resiliência.

A Resiliência é frequentemente apontada em processos que explicam a “superação” de crises e adversidades em indivíduos, grupos e organizações (Yunes, 2001; Yunes & Szymanski, 2001; Tavares,2001).

Por tratar-se de um conceito relativamente novo no campo da psicologia, a resiliência vem sendo bastante discutida do ponto de vista teórico e metodológico pela comunidade científica.

Alguns estudiosos reconhecem a resiliência como um fenômeno comum e presente no desenvolvimento de qualquer ser humano (Masten, 2001) e outros enfatizam a necessidade de cautela no uso “naturalizado” do termo (Martineau, 1999; Yunes, 2001).

Na língua portuguesa, a palavra resiliência aplicada às ciências sociais e humanas vem sendo utilizada há poucos anos. Nesse sentido, seu uso no Brasil ainda se restringe a um grupo bastante limitado de pesquisadores de alguns círculos acadêmicos. Muitos profissionais da área da psicologia, da sociologia ou da educação nunca tiveram contato com a palavra e desconhecem seu uso formal ou informal, bem como sua aplicação em quaisquer das áreas da ciência.

Por outro lado, profissionais das áreas da engenharia, ecologia, física e, até mesmo, da odontologia revelam certa familiaridade com a palavra quando ela se refere à resistência de materiais. Nos diferentes países da Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, a palavra resiliência vem sendo utilizada com freqüência não só por profissionais das ciências sociais e humanas, mas também em referências da mídia a pessoas, lugares, ações e objetos em geral.

Uma pesquisadora canadense (Martineau, 1999) cita, em seu trabalho de doutorado sobre resiliência, alguns exemplos das contradições desse uso coloquial, quando pessoas famosas são consideradas “resilientes” pela mídia tanto por tolerarem como por terminarem seus casamentos.

Pessoas ou produtos (desde pneus de carros até cremes para a pele) que tanto resistem como provocam mudanças também são descritas como “resilientes” nos comerciais de jornais ou TV. Em diálogos informais, as pessoas classificam-se como “resilientes” ou “não-resilientes”, o que sugere uma “objetificação” ou “coisificação” do conceito.

No entanto, no Brasil, a palavra resiliência e seus significados ainda permanecem como “ilustres desconhecidos” para a maioria das pessoas, enquanto nos demais países mencionados o termo resiliência é inclusive muito utilizado para referendar e direcionar programas políticos de ação social e educacional, o que aqui (talvez felizmente) ainda parece estar longe de acontecer.

Para melhor exemplificar a diferença cultural nas prioridades de significado da palavra resiliência nas línguas portuguesa e inglesa,recorreu-se a dicionários atualizados. O dicionário de língua portuguesa de autoria de Ferreira (1999), conhecido como “Novo Aurélio”, diz que, na física, resiliência “é a propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora duma deformação elástica” (p. 566). No sentido figurado, o mesmo dicionário aponta o termo como “resistência ao choque”.

O dicionário de língua inglesa Longman Dictionary of Contemporary English (1995) oferece duas definições de resiliência,sendo a primeira: “habilidade de voltar rapidamente para o seu usual estado de saúde ou de espírito depois de passar por doenças, dificuldades etc.: resiliência de caráter”.

A segunda explicação para o termo encontrada no mesmo dicionário afirma que resiliência “é a habilidade de uma substância retornar à sua forma original quando a pressão é removida: flexibilidade.”.

Como se pode ver, os dois dicionários apontam para conceituações semelhantes e que ao mesmo tempo divergem, pois no dicionário em português a referência é feita apenas à resiliência de materiais e, mesmo no sentido figurado, nada é especificamente claro para a compreensão do que seja a resiliência quando se trata de pessoas. Já o dicionário de inglês confirma a prioridade ou maior familiaridade para o uso do termo em fenômenos humanos, apontando em primeiro plano a definição neste sentido.

Origens do conceito de resiliência

A noção de resiliência vem sendo utilizada há muito tempo pela física e engenharia, sendo um de seus precursores o cientista inglês Thomas Young.

Em 1807, considerando tensão e compressão, introduz a noção de módulo de elasticidade. Young descrevia experimentos sobre tensão e compressão de barras, buscando a relação entre aforça que era aplicada num corpo e a deformação que esta força produzia. Esse cientista foi também o pioneiro na análise dos estresses trazidos pelo impacto, tendo elaborado um método para o cálculo dessas forças (in Timosheibo, 1983).

A Resiliência é conceituada na engenharia como a energia de deformação máxima que um material é capaz de armazenar sem sofrer deformações permanentes, após receber determinada solicitação (Silva Jr., 1972).

Dito de uma outra maneira, a resiliência refere-se à capacidade de um material absorver energia sem sofrer deformação plástica ou permanente. Nos materiais, portanto, o módulo de resiliência pode ser obtido em laboratório através de medições sucessivas ou utilização de uma fórmula matemática que relaciona tensão e deformação e fornece com pre-cisão a resiliência dos materiais. É importante ressaltar que diferentes materiais apresentam módulos variados de resiliência.

A resiliência como construto psicológico

Em psicologia, o estudo do fenômeno da resiliência é relativamente recente. Vem sendo pesquisado há cerca de trinta anos, mas apenas nos últimos cinco anos os encontros internacionais têm trazido este construto para discussão.

Sua definição não é clara, nem tampouco precisa quanto na física ou na engenharia (e nem poderia ser), diante da complexidade e multiplicidade de fatores e variáveis que devem ser levados em conta no estudo dos fenômenos humanos.Os precursores do termo resiliência na psicologia são os termos invencibilidade ou invulnerabilidade, ainda bastante utilizados naliteratura sobre resiliência. Vários autores (Masten & Garmezy, 1985;Rutter, 1985; Werner & Smith, 1992) relatam que “em 1974, o psi-quiatra infantil E. J. Anthony introduziu o termo invulnerabilidade na literatura da psicopatologia do desenvolvimento, para descrevercrianças que, apesar de prolongados períodos de adversidades e estresse psicológico, apresentavam saúde emocional e alta competência” (in Werner & Smith, 1992, p. 4). Alguns anos depois, era discutida a aplicação do termo, que parecia sugerir que as crianças seriam totalmente imunes a qualquer tipo de desordem, independente das circunstâncias.

Como afirmaram Masten e Garmezy (1985):“um termo menos olímpico como resiliência ou resistência ao estresse, se fazia necessário” (p. 12).

Segundo Rutter (1985,1993),a invulnerabilidade passa uma ideia de resistência absoluta ao estresse, de uma característica imutável, como se o ser humano fosse intocável e sem limites para suportar o sofrimento.

Rutter (1993)considera que invulnerabilidade passa somente a ideia de uma característica intrínseca do indivíduo, e as pesquisas mais recentes têm indicado que a resiliência ou resistência ao estresse é relativa, que suas bases são tanto constitucionais como ambientais, e que o grau de resistência não tem uma quantidade fixa, e sim varia de acordo com as circunstâncias (Rutter, 1985).

Resiliência e invulnerabilidadenão são termos equivalentes, afirmam Zimmerman e Arunkumar(1994). Segundo estes autores, resiliência refere-se a uma “habilidade de superar adversidades, o que não significa que o indivíduo saiada crise ileso, como implica o termo invulnerabilidade” (p. 4).

Apesar dessas considerações, é essa versão inicial de resiliência como invulnerabilidade ou resistência frente às adversidades que ainda vem orientando a produção científica de muitos pesquisadores da área. Tal perspectiva tem dado lugar à construção de um conceito que define a resiliência como um conjunto de traços e condições que podem ser replicados, conforme afirma Martineau (1999) em sua análise crítica sobre o discurso dos denominados por ela experts no assunto.

A autora detectou três perspectivas distintas nos discursos vigentes sobre resiliência.Em primeiro lugar, o discurso dominante e bem documentado dos especialistas, resultante de elaborados estudos psicométricos e da análise estatística dos dados obtidos por medidas e em ambientes controlados através de escores de testes, notas de escola e perfis de personalidade ou temperamento.

Esses são alguns exemplos de instrumentos utilizados para se chegar a um conjunto de características e traços que identificam a “criança/pessoa resiliente”. Martineau sumariza que os principais traços vistos como características fixas da resiliência e que formam um consenso na opinião de diversos autores são: sociabilidade, criatividade na resolução de problemas e um senso de autonomia e de proposta.

Estas medidas do observável e de alguma maneira mensurável acabam por definir o que os autores (experts) chamam de resiliência.

Em segundo lugar, a autora analisa o discurso experiencial, menos valorizado e subordinado ao discurso dos especialistas cuja base são os estudos qualitativos, com dados obtidos a partir de histórias de vida de adultos relatadas a psicoterapeutas (e identificados por outras pessoas como “resilientes”), nas quais “estão embutidas as idiossincrasias de memória, narrativa, identidade, interpretação e subjetividade”(Martineau, 1999, p. 73).

São histórias de vida construídas e reconstruídas através das múltiplas interpretações do indivíduo. E, em terceiro lugar, Martineau apresenta o discurso de pessoas que trabalham diretamente com crianças e adolescentes (educadores, psicólogos, assistentes sociais), uma perspectiva de resiliência ainda em construção, que sintetiza aspectos dos dois discursos, dos experts e do experencial. Ao posicionar-se, Martineau afirma que reificar/replicaras características de uma determinada criança como “resiliente” (através da mensuração de um conjunto de traços) é negar que a resiliência é contingente/provisória, imprevisível e dinâmica.

Resiliência e pesquisas com foco no indivíduo

Vários autores estrangeiros, principalmente dos Estados Uni-dos e do Reino Unido, têm desenvolvido pesquisas sobre resiliência.A maioria dos estudos tem por objetivo estudar a criança ou o adolescente numa perspectiva individualística, que foca traços e disposições pessoais. Ilustrativa desta tendência, é a definição adotada pelo Projeto Internacional de Resiliência, coordenado por Edith Grotberge apoiado pela Bernard van Leer Foundation: “resiliência é uma capacidade universal que permite que uma pessoa, grupo ou comunidade previna, minimize ou supere os efeitos nocivos das adversidades” (Grotberg, 1995, p. 7).

Muitos pesquisadores do desenvolvimento humano estudam os padrões de adaptação individual da criança associados ao ajustamento apresentado na idade adulta, ou seja,“procuram compreender como adaptações prévias deixam a criança protegida ou sem defesa quando exposta a eventos estressores” (Hawley & DeHann, 1996), e estudam também como os “padrões particulares de adaptação, em diferentes fases de desenvolvimento,interagem com mudanças ambientais externas” (Sroufe & Rutter,1984, p. 27).

Entre as publicações mais citadas, estão as primeiras no assunto, intituladas Vulnerable but invincible (Vulneráveis, porém invencíveis), Overcoming the odds (Superando as adversidades), ambos de Werner e Smith (1982, 1992) e The invulnerablechild (A criança invulnerável) de Anthony e Cohler (1987).

A importância destes estudos está na característica long-term, ou seja,são estudos longitudinais que acompanham o desenvolvimento do indivíduo desde a infância até a adolescência ou idade adulta.

Segundo Werner e Smith (1992), poucos investigadores têm acompanhado populações de “alto risco” desde a infância e adolescência até a idade adulta, com o objetivo de monitorar efeitos dos fatores de risco e os fatores de proteção que operam durante os anos de desenvolvimento do indivíduo.

O estudo longitudinal realizado por Werner (1986,1993), Werner e Smith (1982, 1989, 1992) e outros colaboradores durou cerca de 40 anos, tendo iniciado em 1955. Esse estudo não tinha como proposta inicial estudar a questão da resiliência, mas investigar os efeitos cumulativos da pobreza, do estresse perinatal e dos “cuidados familiares deficientes” no desenvolvimento físico, social e emocional das crianças.

A pesquisa acompanhou 698 crianças nascidas em Kauai, uma ilha do Havaí. As crianças foram avaliadas com um ano de idade (incluindo entrevistas com os pais) e acompanhadas até as idades de 2, 10, 18 e 32 anos.

O foco da pesquisa relatada no livro Vulnerable but invincible foram 72 crianças (42 meninas e 30 meninos) com uma história de quatro ou mais fatores de risco, a saber: pobreza, baixa escolaridade dos pais, estresse perinatal ou baixo peso no nascimento, ou ainda a presença de deficiências físicas.

Uma proporção significativa dessas crianças era proveniente de famílias cujos pais eram alcoolistas ou apresentavam distúrbios mentais. Para surpresa dos pesquisadores, nenhuma dessas crianças desenvolveu problemas de aprendizagem ou de comportamento (Werner & Smith, 1982), o que foi considerado então como “sinal de adaptação ou ajustamento”.

Diante desses indicativos,as crianças foram denominadas “resilientes” pelas pesquisadoras,pois nesse período já era discutido o que haveria de diferente nas crianças que eram criadas em circunstâncias adversas e não eram atingidas (embora não fique bem claro o que significa ser ou não atingido).

Uma outra amostra estudada por Werner (1986) foi um subgrupo de 49 jovens da mesma ilha, cujos pais tiveram sérios problemas devido ao abuso do uso de álcool e sofreram conflitos familiares desde cedo, além de viver em condições de pobreza. Por voltados 18 anos, 41% desse grupo apresentou problemas de aprendizagem, ao contrário dos restantes 59%. Esse último grupo foi denominado grupo “resiliente”, e diferia do primeiro por um número de medidas obtidas através de entrevistas com pais e entrevistas retrospectivas com os próprios jovens.

Os fatores que discriminaram o grupo “resiliente”, tanto nas pesquisas de 1982 como na de 1986,incluíam: temperamento das crianças/jovens (percebidos como afetivos e receptivos); melhor desenvolvimento intelectual; maior nível de autoestima; maior grau de auto controle; famílias menos numerosas; menor incidência de conflitos nas famílias. As autoras atribuíram as diferenças às características constitucionais das crianças e ao ambiente criado pelos cuidadores da infância. Na última etapa dessa laboriosa pesquisa, Werner e Smith (1992, p. 192) concluíram que “um terço dos indivíduos considerados de alto risco tornaram-se adultos competentes capazes de amar, trabalhar, brincar/divertir-se e ter expectativas”.

Conforme afirma Martineau (1999), a “resiliência”a que as autoras se referem foi identificada nas pesquisas iniciais como “invulnerabilidade às adversidades”, conceituação reformulada e mais tarde definida como “habilidade de superar as adversidades”.Werner (1993) notou que o componente chave do efetivo coping dessas pessoas é o sentimento de confiança que o indivíduo apresenta de que os obstáculos podem ser superados, o que confirma a ênfase colocada nos componentes psicológicos individuais, de um “algo interno”, apesar das inúmeras referências feitas pelas autoras aos aspectos protetores decorrentes de relações parentais satisfatórias e da disponibilidade de fontes de apoio social na vizinhança, escola e comunidade.

Como já citado, outro importante e referido pensador do assunto é o psiquiatra britânico Michael Rutter, precursor da temática,que, pelo número de publicações e pesquisas empíricas, tem orienta-do até hoje o curso dos projetos na área. Seus trabalhos mais conhecidos datam do início dos anos 70, com a investigação de diferenças entre meninos e meninas provenientes de lares desfeitos por conflitos (Rutter, 1970) e as relações entre os efeitos destes conflitos parentais no desenvolvimento das crianças (Rutter, 1971).

Seus resultados indicaram que os meninos são mais vulneráveis que as meninas, não somente a estressores físicos, mas também aos psicossociais. Um de seus marcantes trabalhos nesta área foi desenvolvido com uma amostra de participantes da Ilha de Wight e da cidade de Londres (Rutter, 1979, 1981b), os quais haviam experenciado discórdias na família dos pais, eram de camadas sociais de baixa renda, famílias numerosas, com história de criminalidade de um dos pais, doença mental da mãe ou institucionalizados sob custódia do governo. Seus resultados deram origem à sua afirmação bastante divulgada de que um único estressor não tem impacto significativo,mas que a combinação de dois ou mais estressores pode diminuir a possibilidade de conseqüências positivas (positive outcomes) no desenvolvimento, e que estressores adicionais aumentam o impacto de outros estressores presentes.

Em 1981, Rutter publica um livro que trata da relação entre a ausência da figura materna e o desenvolvimento de psicopatologias na criança (Rutter, 1981a), com um capítulo que versa sobre resiliência e o comportamento parental de adultos que na infância tenham sofrido abandono. Entre as principais questões levantadas, aparece a mais freqüente formulação inicialdos estudos sobre resiliência: por que, apesar de passar por terríveis experiências, alguns indivíduos não são atingidos e apresentam um desenvolvimento estável e saudável? Rutter (1987) define resiliência como uma “variação individual em resposta ao risco”, e afirma “que os mesmos estressores podem ser experenciados de maneira diferente por diferentes pessoas”.

De acordo com ele, a resiliência “não pode ser vista como um atributo fixo do indivíduo”, e “se as circuns-tâncias mudam a resiliência se altera” (p. 317). Mais recentemente,Rutter (1999) define a resiliência de uma forma mais ampla: “o ter-mo refere-se ao fenômeno de superação de estresse e adversidades” (p. 119), e categoricamente afirma que “resiliência não constitui uma característica ou traço individual” (p. 135).

Entre outros pontos, nessa mesma publicação, Rutter (1999)chama a atenção para a extensão e variedade de respostas psicológicas implicadas, que envolvem processos a serem cuidadosamente examinados. Mas o foco de suas considerações mantém-se no indivíduo, e em especial na criança.

Mais recentemente, importantes pesquisadores do assunto (Luthar, Cicchetti, & Becker, 2000) mani-festaram-se a esse respeito defendendo uma posição mediadora no sentido de enfatizar o caráter processual da questão da resiliência.Segundo os autores mencionados, há uma “confusão” entre Processo vs Traço nos estudos, em decorrência do ocasional uso do termo “criança resiliente” por pesquisadores que, na verdade, são adeptos de uma visão dinâmica da resiliência, ou seja, processual. Luthar e colaboradores (2000) reiteram que o termo “criança resiliente”, empregado por muitos autores, não se refere a atributos pessoais, mas à pressuposição de condições de resiliência, a saber:a) a presença de fatores de riscos ao bem estar da criança, e b) a adaptação positiva da criança, apesar das adversidades.

A maioria destas considerações, e em especial as mais atuais (Luthar et al., 2000; Rutter, 1993, 1999), procura dar ao conceito um toque de relatividade, que nem sempre aparece nos estudos quantitativos que usam medidas e critérios estatísticos (talvez seja o que Luthar et al ., 2000 chamam de “rigor científico”, p. 556) baseados em comportamentos observáveis para identificar crianças“resilientes” num determinado ponto de suas vidas. O estudo desenvolvido por Martineau (1999) deixa claro que “resiliência tem diferentes formas entre diferentes indivíduos em diferentes contextos,assim como acontece com o conceito de risco” (p. 103).

Fonte: Passei Direto 

1 . Versão revisada de artigo publicado na revista Psicologia em Estudo, 8 (número especial), 75-84, em 2003.

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