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Exercício de Psicologia Positiva: Histórias de Resiliência

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A resiliência é transmissível, diz o colunista de Psicologia Positiva Chris Johnstone. Ao compartilhar as histórias que nos inspiram, podemos transmiti-la.

Uma estratégia que Chris repete durante seus cursos de resiliência é identificar exemplos inspiradores dos ouvintes. Assim, ele pede aos participantes que pensem em pessoas que enfrentaram situações difíceis e responderam de maneiras que levaram a resultados melhores do que o esperado. Muitas vezes há um zumbido na sala enquanto as pessoas compartilham as histórias pelas quais foram tocadas. Conforme as palavras fluem, os ouvintes tendem a se sentir fortalecidos pelo que ouvem.

Veja como funciona o exercício de psicologia positiva sobre histórias de Resiliência

Primeiro convide as pessoas a usarem uma estrutura de quatro partes, conforme é demonstrado abaixo. Cada parte começa com a primeira metade de uma frase, com o contador de histórias usando isso como um trampolim para lançar o exemplo que será compartilhado. O palestrante ou professor é o primeiro que conta a história de resiliência, demonstrando assim, como os participantes devem fazer. No exercício abaixo, Chris Johnstone usa o exemplo de Giles Duley.

exercício de psicologia positiva
Imagem de stocksnap

1) Esta é uma história sobre…

Aqui o participante deve nomear o personagem central da sua história e fala um pouco sobre ele ou eles, se for mais de um. Meu exemplo é uma história sobre um fotojornalista chamado Giles Duley, com quem me deparei quando vi sua palestra no TED on-line. Querendo usar sua fotografia para fazer algo útil no mundo, ele começou a documentar as histórias de pessoas que enfrentavam situações desafiadoras. Passando tempo com refugiados Rohingya em Bangladesh, pessoas em casas de repouso no Reino Unido e crianças de rua na Ucrânia, suas fotos abriram uma janela para a forma como as adversidades são vividas.

“Histórias de resiliência tendem a ter pontos de virada onde algo muda, novas possibilidades são abertas e oportunidades inesperadas são encontradas”

2) A adversidade enfrentada é …

A Resiliência é sobre nossa capacidade de resistir, lidar e se recuperar de situações difíceis. Então, nesta segunda parte, você descreve a adversidade enfrentada pelo personagem principal da sua história. Para Giles Duley, a adversidade enfrentada foi pisar em uma mina terrestre enquanto trabalhava com sua câmera no Afeganistão. Ele perdeu três dos seus membros. Ele achava que sua vida como fotógrafo acabara.

3) O que ajuda aqui é…

O que é que ajuda a resiliência a acontecer? Para cada pessoa, pode haver escolhas que eles fazem, recursos para os quais recorrem, forças em que se baseiam ou insights que aplicam. Ao se interessar pelas etapas que as pessoas tomam para ajudá-las a lidar com a adversidade, aprendemos mais sobre como a resiliência é feita. Para Giles Duley, o que ajudou foi lembrar as vidas das pessoas que ele fotografou. Ele se sentiu inspirado por suas histórias e tirou força deles.

4) E isso leva a…

O que acontece com a resiliência que poderia não ter ocorrido sem ela? Eu valorizo ​​as histórias de resiliência porque elas me lembram que só porque uma história começa com coisas horríveis acontecendo não significa que as coisas sempre acabarão mal. Histórias de resiliência tendem a ter pontos de virada onde algo muda, novas possibilidades são abertas e oportunidades inesperadas são encontradas. Giles queria usar sua fotografia para fazer a diferença no mundo, contar as histórias dos outros para que pudéssemos aprender com eles. No entanto, sua própria história tornou-se tão poderosa quanto qualquer uma de suas imagens, transmitindo lições aprendidas e inspiradas por ele. Sua palestra no TED foi assistida mais de 100.000 vezes.

Conclusão

As Histórias de resiliência geralmente começam com más notícias, com tragédia e dor. No entanto, a história é importante pelo que acontece DEPOIS disso, pela aurora que segue a hora mais sombria. Como diz Giles em sua palestra: “Perder seus membros não acaba com sua vida. A vida continua. Podemos inspirar cada um a superar suas próprias experiências ruins ”.

Quando estou com dificuldades, quando alcanço os meus pontos baixos, recorro às minhas histórias de resiliência favoritas e as valorizo ​​como uma fonte de força. Penso em Giles dizendo a mim mesmo: “Se ele pôde lidar com isso, talvez eu possa lidar com isso”. Sim. A resiliência é transmissível. Ao compartilhar as histórias que nos inspiram, podemos transmiti-la.

Traduzido e adaptado de Positive News

Giles Duley: O poder de uma história

Assista à palestra no Ted de Giles Duley. Ative a legenda em português.

Transcrição da palestra no Youtube:

Minha história começa com um pequeno presente: uma câmera Olympus OM-10 e um livro do fotógrafo de guerra Don McCullin.
Aos 18 anos, fui para os Estados Unidos através de uma bolsa de estudos esportiva. Eu era o pior pugilista do mundo.
Eu me lembro de ganhar um cumprimento irônico do meu treinador.
Ele disse: “Giles, você toma um soco muito bem”. (Risos)
Mas como irão ver, eu sou um personagem bem teimoso e não tinha certeza de que a minha falta de habilidade esportiva não iria ficar atrapalhar uma carreira esportiva.
Mas quando cheguei aos EUA, sofri um acidente e lesionei meu joelho, e tive que voltar para o Reino Unido.
De repente me encontrei em um hospital, e soube que nunca praticaria outro esporte novamente.
Eu falhei na escola, fui uma criança bastante problemática,  e vivendo na cama do hospital, me tornei um homem muito raivoso.
Não tinha ideia do que iria fazer com meu futuro.
Infelizmente, ao mesmo tempo, meu avô Barry, de quem eu era muito próximo, faleceu.
Mas ele me deixou duas coisas que a esposa dele, Neeta, foi me entregar no hospital.
Uma câmera Olympus OM-10 que ele tinha acabado de comprar, e um livro do fotógrafo de guerra Don McCullin.
Eu nunca me interessei muito por fotografia.
Cresci em uma casa onde arte não era uma grande coisa; não éramos de acompanhar ou escutar os noticiários.
Então, de repente, eu estava de frente a essas imagens em preto e branco que Don McCullin havia tirado, pela primeira vez. Fotos de Biafra, da fome em Bangladesh, da guerra no Vietnã,
e fiquei maravilhado, muito comovido por essas histórias.
À noite, eu ligava a luz e pegava o livro no criado mudo porque eu tinha que olhar de novo. E até hoje, se fechar meus olhos, ainda consigo ver aquelas imagens.
Fiquei tão comovido que eu sabia que isso era o que queria fazer da minha vida. Eu queria seguir os passos de Don McCullin e registrar conflitos ao redor do mundo.
Então com essa câmera Olympus OM-10, eu me ensinei sobre fotografia deitado na cama do hospital.
Eu fotografava os médicos, enfermeiras, meus amigos; qualquer um que entrasse.
Com 18 anos, fotografava principalmente as enfermeiras. (Risos)
E quando saí do hospital, tinha dominado as noções básicas de fotografia.
Mas eu tinha alguns amigos músicos em bandas, e eles falavam: “Você pode vir junto e nos fotografar?”
E realmente por acidente, eu me tornei fotógrafo musical.
De repente revistas estavam me contratando e eu viajava ao redor do mundo fotografando a vida dos The Charlatans, Oasis, Marilyn Manson, Mariah Carey, Lenny Kravitz.
Então, de repente eu entrei nessa vida excitante do rock ‘n’ roll.
Eu me lembro da minha tia Margaret, uma escocesa muito séria, num dia de Natal, ela me disse:
“Giles, pensei que você quisesse fazer algo sério com sua fotografia, e aqui está você, fazendo essa besteira de música e moda. O que deu errado?”
(Risos)
Eu olhei pra ela e disse: “Tia Margaret, tenho que ser honesto, faço isso apenas por causa das lindas mulheres e ótimas festas!”
Ela disse: “Giles, é sério!”
Eu disse: “Tenho 19 anos, isso é um bom motivo pra um plano de carreira”.
(Risos)
Foi o que fiz pelos próximos 10 anos, e eu amava.
Eu me diverti muito, conheci muita gente fantástica, mas cada vez mais, havia uma sensação irritante de que eu deveria estar fazendo mais com minha vida.
E aquela sensação irritante cresceu, se tornando uma depressão, e eu me vi profundamente triste com o trabalho que fazia, com minha vida, mas não conseguia entender o que havia de errado.
Por fora, para os outros, parecia que eu tinha a vida dos sonhos, mas por dentro eu estava vazio.
Um dia eu estava fazendo uma sessão no Hotel Charlotte Street, em Londres, um sofisticado hotel,
e acontecia uma discussão entre o editor de uma revista e uma jovem atriz, por causa do nível de nudez dela.
Outra coisa pela qual eu estava ficando bastante cínico era a forma como as mulheres eram retratadas nas revistas que trabalhava.
Estava ouvindo essa discussão, e de repente eu pensei: “Não foi por isso que me tornei fotógrafo!”
E num momento rockstar, peguei minhas câmeras e as joguei pela janela do Hotel Charlotte Street.
Essa é a história.
Quem me conhece sabe que eu sou menos rock ‘n’ roll e mais pra Radio 4.
Eu meio que tive um chilique e as joguei na cama.
(Risos)
Acontece que elas quicaram para fora da janela.
Alguém as viu voando pela janela, e eu tive que ir junto.
Mas foi um final simbólico da minha fotografia.
Eu afundei em uma depressão profunda, e não tinha a menor ideia do que iria fazer com a minha vida.
Eu tinha só 29 anos, mas sentia que minha vida realmente tinha acabado. E aí me lembrei daquele pequeno presente, daquela Olympus OM-10, e do trabalho de Don McCullin, e então percebi que era aí que eu estava errando, e que eu não tinha seguido o que era o meu destino.
Então resolvi me mudar para Angola.
Vendi meu apartamento, e fui atrás de uma carreira de tempo integral como um fotógrafo documentarista cobrindo conflitos ao redor do mundo.
Mais especificamente, cobria os efeitos dos conflitos em civis pelo mundo.
Eu estava muito interessado nas histórias dessas pessoas.
Em 2011, enquanto fazia um trabalho no Afeganistão, pisei numa mina terrestre.
Perdi minhas duas pernas e meu braço.
Naquele ponto, inicialmente me foi dito que minha vida provavelmente acabaria.
Depois que nunca mais andaria de novo, e dificilmente trabalharia novamente.
Algumas semanas depois que me feri, assisti ao noticiário e vi quando a primeira revolta começou na Síria.
Com o passar dos meses, fiz 37 cirurgias no primeiro ano, e durante a recuperação, assisti aos noticiários de novo, e vi a crise na Síria crescer.
Conforme começava minha reabilitação, enquanto treinava andar novamente, a única coisa na minha mente era que tinha que ir cobrir aquelas histórias, porque sabia que aquelas eram as histórias mais importantes da minha carreira, e tinham que ser contadas.
Três anos depois do meu ferimento, estava bem o suficiente para trabalhar novamente, e o primeiro lugar que queria ir era para Líbano, para documentar a crise vivida pelos refugiados lá.
O Líbano tem 4 milhões de habitantes, e no período que fui em 2014, eles já tinham mais de 1 milhão de refugiados sírios morando lá. Isso é 25% da população.
Para colocar em contexto, ano passado, durante a crise de refugiados da Europa, quase 1 milhão de refugiados e imigrantes chegaram à Europa.
A Europa tem uma população de 250 milhões de habitantes, então imagine como está a pressão no Líbano.
Eu estava mais interessado nos mais vulneráveis, aqueles com deficiências, os mais velhos, as mães solteiras.
Então fui pra lá e comecei a documentar. Essa é uma das primeiras pessoas que conheci, a Khulood.
Khulood estava em sua horta, e seu vilarejo na Síria estava sitiado, então ela cultivava vegetais.
Ela estava em sua horta com as crianças, cuidando delas, quando ela, de repente, caiu.
Um atirador de elite atirou na sua espinha e ela caiu na frente dos filhos. Sua família conseguiu levá-la para Damasco, onde sua vida foi salva, e então levaram-na para o Líbano.
Eles acabaram indo morar numa tenda improvisada em um local abandonado no Vale do Beca.
Quando fui visitá-la, o marido dela, que está nessa foto, era seu cuidador todo o tempo.
Eu perguntei para Khulood: “Qual sua esperança para o futuro?”
Ela respondeu: “Só quero voltar a ser uma mãe novamente”.
Ela me descreveu como se sentia, ela ficou tetraplégica, quando ouvia as crianças brincando, e uma delas caia e arranhava o joelho.
Elas vinham, pegavam a mão dela e colocavam em cima do machucado, dizendo: “Faça melhorar, mamãe”.
Ela disse: “Eu nem posso sentir”.
Conheci Reem, que estava dormindo em sua casa quando um míssil a atingiu. O marido dela morreu na cama ao seu lado, uma das filhas foi morta no quarto ao lado do deles.
Ela perdeu uma perna. Quando a conheci, ela morava no Vale do Beca, no Líbano, numa casa que ainda não estava pronta. Ela ficava no terceiro andar, então devido a sua prótese ela não era capaz nem de sair ou entrar no prédio.
Seus filhos não moravam mais com ela, pois ela sentia vergonha, e não os queria morando com ela, já que sentia que não poderia ser mãe.
Esse era o pai dela, que também morava no telhado.
Quando tirei sua foto, perguntei: “Por que você vive no telhado?”
Ele olhou para as montanhas, no horizonte, e disse:
“Aquela é a Síria. Talvez nunca volte lá pelo resto da minha vida, mas pelo menos toda manhã e tarde, eu vejo minha casa”.
Depois visitei Aya. A primeira vez que a vi, fiquei chocado.
Uma garotinha de 4 anos, com espinha bífida. Quer dizer que é paralisada da cintura para baixo.
Quando fui vê-la, ela estava vivendo como os outros, numa tenda improvisada. Estava sozinha, no chão de concreto.
Olhei para ela e pensei como ela parecia vulnerável, como uma vítima, e um dos elementos chaves do meu trabalho
é nunca registrar as pessoas como vítimas. Eles são vítimas das circunstâncias, mas não gosto que sejam vistas como vítimas.
Então falei para meus companheiros:
“Não posso tirar essa foto, está errado, e não a representa no sentido correto”.
E logo quando disse isso, sua família voltou para dentro, pessoas começaram a conversar, e a mãe dela, Shihan, me disse: “Você tem que conhecer a irmã dela, Iman. Iman e Aya devem ser fotografadas juntas”.
Eu perguntei: “Por quê?” E ela me contou a história.
Iman, que tinha apenas 12 anos quando sua casa foi bombardeada na Síria, foi quem pegou Aya em seus braços.
Elas fugiram e se esconderam no porão por três dias, sem água nem comida, e então começaram a perigosa viagem da Síria para o Líbano que durou quase três meses.
Ela carregou sua irmã Aya por toda a jornada.
Então também descobri que Aya não era uma vítima. Era, na verdade, a garotinha de 4 anos mais corajosa que eu já conheci.
Quando Iman entrou na sala, ela gritou: “Ei, besta, me levante!”
(Risos)
Elas saíram e foram brincar de amarelinha. Fui embora e voltei diversas vezes.
E, como disse, descobri que Aya era essa garotinha incrivelmente corajosa, então a foto que consegui tirar foi essa, que acho que realmente a representa.
Ano passado, fui convidado pelo ACNUR para documentar a crise de refugiados da Europa e do Oriente Médio.
Eles me deram uma das instruções mais impressionantes dada a um fotógrafo.
Eles apenas disseram: “Siga seu coração”.
Pelos primeiros seis meses, documentei a crise pela Europa, mas sabia que se realmente quisesse seguir meu coração, tinha que voltar ao Líbano e visitar de novo as famílias que conheci lá, na primeira vez.
Esta foi conhecendo o pai da Reem. Dei a ele uma foto que tirei, e seu primeiro comentário foi:
“Você me fez parecer bem velho!”
(Risos)
Essa é Reem, e vocês verão que a sua filha Sara agora está com ela, e essa é com seu pai e irmão; e a vida, em vários sentidos, continua.
A comida, todas as coisas que se espera que uma família faça. Mas quanto mais tempo passamos lá, mais percebemos que as coisas não são bem como parecem ser.
Os homens não conseguem trabalhar, e, em vários casos, as crianças não podem ir à escola.
Quando falei com a Reem sobre sua filha Sara, perguntei: “Como é a educação dela? Como é a escola?”
Descobri que a Sara não vai à escola há quatro anos. De fato, ela nem brincou com nenhuma outra criança durante esse período.
Ela estava isolada naquele telhado, e esse é o caso de muitas crianças refugiadas ao redor do mundo.
Eu, claro, voltei para visitar Aya e a família dela.
As coisas mudaram um pouco. O ACNUR providenciou acomodação melhor e eles conseguiam comida o suficiente.
Aya estava tão corajosa como sempre. Aqui está ela brincando, novamente dizendo ao seu irmão besta para ir mais rápido, e as coisas até que estavam boas.
Mas novamente, quando passamos tempo com a família, percebemos que as coisas mudaram, psicologicamente.
A primeira vez que os conheci, diziam:
“Em seis meses vamos retornar à Síria, a guerra não vai durar tanto”.
Agora quando sentei e conversei com Shihan e Ayman, os pais de Aya, eles falaram:
“Perdemos a esperança. Não acreditamos que veremos a Síria outra vez”. Então, agora estão procurando por outras opções.
No último dia que estava lá, recebi uma ligação.
Eu tinha rastreado muitas pessoas que conheci no Líbano, mas não todas, e naquela ligação, falei com um membro da família de Khulood.
Disseram: “Khulood adoraria te ver, ela soube que você está aqui”.
Perguntei: “Aonde ela está vivendo?”
E disseram: “Na mesma tenda, onde você a conheceu”.
Meu coração parou.
Pensei em todas as pessoas que conheci dois anos antes; ela era a mais vulnerável e com mais necessidades. Não podia acreditar que estava vivendo na mesma tenda.
Fiquei chocado.
Quando voltei lá, realmente caí no choro.
Eu disse: “Eu falhei com você.
Tentei dizer sua história, mas você ainda está aqui, na mesma situação”.
O marido dela me abraçou e disse:
“Você não falhou conosco, e sabíamos que você voltaria”.
Estava em turbulência, me sentindo perdido,
Pensei: “Qual o propósito do meu trabalho se não faço a diferença?”
Mas no dia seguinte, aquela teimosia clicou novamente e disse que a única coisa que eu poderia fazer era contar a história de novo.
Então voltei e durante os próximos dias, documentei tudo sobre o cotidiano deles.
Honestamente, nunca antes havia trabalhado tão duro como fotógrafo para tentar contar a história deles.
É uma linda família e podemos ver as conexões que todos têm.
Mas imagine que a Khulood não saiu daquela tenda por mais de dois anos.
Todos os dias ela deitada lá, olhando para o teto.
Essa é ela fazendo a tarefa com as crianças, essa é ela com seu marido, que cuida dela pacientemente, todos os dias.
Estava nervoso para mostrá-los as fotos que tirei da primeira vez.
Essa é a foto que tirei da Khulood, logo depois de ser ferida, com ela vivendo nessa tenda, paralisada; como ela vai resistir?
Mas disse a eles: “Quero dar a vocês a primeira foto que tirei.
Quando eu tirei essa foto, não via vocês como refugiados.
Não tirei uma foto de uma pessoa desabilitada.
Tirei uma foto de um casal que se ama profundamente”.
Então os dois começaram a chorar, eu comecei a chorar,
e eles olharam um para o outro e expressaram o quanto se amavam.
Estamos enfrentando uma crise global.
A crise dos refugiados afeta a todos nós. É uma crise global, que precisa de soluções globais.
Estamos em uma encruzilhada sobre como escolhemos tratar e lidar com a crise dos refugiados.
Também acho que é o momento na história da nossa humanidade de lidar com isso, e é difícil.
Eu volto das viagens, e me perguntam:
“Como você lida com tudo que vê nesses acampamentos?”
Digo que a maior luta é que naqueles acampamentos eu vejo humanitarismo, amor, e compaixão.
Frequentemente quando volto para casa, é aonde eu sinto falta disso.
Todos os dias vemos histórias negativas nas mídias.
Todos os dias políticos usam retórica negativa para seu próprio bem.
Toda manhã, nas redes sociais, vejo histórias negativas com intolerância e ódio.
Nós, que sabemos o que é certo, precisamos reagir, marcarmos presença, e fazermos algo sobre isso, pois toda vez que vejo uma daquelas histórias negativas, eu penso na Aya, na Reem, na Khulook, e penso: “O que mais posso fazer?”
Quero todos indo para casa esta noite, pensando: “O que mais posso fazer?”
Porque podemos fazer alguma coisa, podemos fazer a diferença, seja arrecadando fundos, doando para alguma grande organização, nos envolvendo e nos voluntariando com organizações de base.
Há tantas coisas: peticionar seus políticos, e quando virem histórias negativas nas redes sociais, talvez apontem a verdade para essas pessoas.
E não importa o tamanho do nossos atos, nós podemos e devemos fazer a diferença.
Quero terminar minha história com um pequeno presente.
Há 25 anos, meu avô faleceu,
e me deixou uma câmera Olympus OM-10,
e um livro de guerra do fotógrafo Don McCullin.
O que eu não percebi é que ele me deu duas coisas: no trabalho do Don McCullin, ele me deu o dom das histórias, e com a câmera, ele me deu o presente de como contá-las.
Recebi uma carta seis meses atrás, de um jovem da Austrália chamado Mark e ele começou dizendo: “Queria que soubesse que entrei na Escola de Medicina de Brisbane”.
Pensei: “Que bom, mas por que está me contando isso?”
(Risos)
Então ele explicou que batalhou em seu último ano no colégio.
Foi muito difícil para ele, ele tinha problemas em casa, lutava academicamente, diziam que ele não era inteligente o suficiente.
Mas ele disse: “Entrei em Medicina na Brisbane para fazer cirurgia e fui um dos melhores da turma.
Mas quero te agradecer, Mr. Duley.
Uma foto que você tirou no Afeganistão me inspirou, e todos os dias eu via aquela foto na minha parede, e quando eu batalhava, olhava para ela e dizia que era por isso que queria fazer o que estava fazendo”.
Depois de 25 anos que aquela câmera me foi dada, os vestígios desse gesto ainda estavam sendo sentidos  e afetando pessoas ao redor do mundo.
Eu sou um contador de histórias, mas elas não têm poder se não forem ouvidas.
Então quero agradecer a todos vocês por escutarem essas histórias hoje.
Juntos, nós tornamos essas histórias concretas, mas agora é hora de agir, a partir dessa forte base que construímos, porque temos que tomar uma atitude e agora é a hora de agir, e acredito, honestamente, que juntos podemos fazer a diferença. Obrigado.
(Aplausos)

Tradutor: Renato Auricchio Revisor: Maricene Crus

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